A situação, no moment em que escrevo, é grave. Vim cá fora, ver o que havia e, de repente, a paisagem tinha desaparecido. Procurei em torno, tentei respirar um pouco de ar fresco e engoli centenas de escorpiões que voejavam, espantados das tocas.
Quando entrevi e vi já não entendi nada. O que havia, senti que era passado. O que está para acontecer, ou estou muito enganado, ou será o futuro. Entre um e outro, a fina parede cristalina da presente indecência. Minha mãe, dizia então o cirurgião plástico, também foi velha um dia. Que sei eu, porém, do que ignoro? E que ignoras tu do que aprendeste? É só retificar um pouco a linha curva, eis uma reta. Que a ambição deste dia é ter duas auroras. Quem mente, porém, e diz que mente, mente? Mente no próprio ato de mentir ou mente mais quando diz que não mente? E de repente, sente? E costumeiramente? E rotineiramente? Venha de lá um abraço que vai daqui um soco. Meu pai jamais viu minha mãe, sou filhe e fruto dos trustes internacionais. Pablo Duarte de Teixeira Leite, um nome probo entre assassinos limpos. Em Portugal só nascem luzitanos. Já não digo o mesmo porém, de Sezinando, que ao expirar, morreu, e sucumbiu também, pobre cadáver! Em pé, como os que sentam. Sentado, mas deitado. Deitado, a toda pressa. O vento que passava carregando o fresquinho. Moleque de outros tempos, acorrentado e livre. Um vendia cocadas, o outro, cocos, um subia as palmerias e outro, no teatro, enriquecia de dizer besteiras. Só aplaudo a mim mesmo, pois sei que sou sincero. Durmo sempre enre feras, acrodo entre os escolhos, como pontas de pregas, visto trajos de andrajos, e vou me acostumando. Que nem por ser cristão eu sou tarado. Que nem por ser medroso me apavoro. Que a covardia em mim já é muita coragem. Sou tão manco da lanterna esquerda que a luz que dou não ilumina nada. Se balançar a cabeça os guizos soam. Atendem logo serviçais de prata. Eu lhes digo o que quero: opa de opa, centenas de macacos, uma visão total da Enciclopédia, mulher é mato, e, com um pouco do molho da perfídia, a sensação do fato. Recuem todos agora para a frente e logo avancem um passo para trás, ue é assim o chá-chá-chá dos pobres. Conto o que conto e se me contar reconto falha é a memória, vivo é só o conto. Há milhões de agulhas pelo espaço. O sexo é finito, arte finita, finito é tuto il tempo. Mandei limpar a areia desta praia - não foi muito trabalho, quatrocentos trilhões de quatrilhoes de bisbilhões e vintilhões de gráso e grões. Limpei folha por folha, dedo a dedo, nuvem a nuvem e foi das plantações a mais bonita. Nasceu primeiro a copa, em seguida as raízes e seis meses depois, um belo tronco. Agora eu calo. Agora eu falo. Agora, novamente, calo. Agora eu falo novamente. E quem puder, desdiga. Um homem é um homem ou o resto de uma intriga? Voz embargada. Passo, tardo. Coração, partido. Há borbulhas venenosas que penetram no abrigo. Ela respira o mesmo ar que eu respiro, a desgraçada! Ah, meu pai do céu, deixa eu viver, mesmo radioativo! Mesmo radiopassivo! Mesmo televisivo. Prometo contaminar um milhão de pessoas!
