(Lição sôbre a dita arte, feita com perguntas e respostas. Especialmente para ser usada no curso de Cinismo Jornalístico da Faculdade de Filosofia).
P - Qual é o objetio fundamental de uma entrevista?
R - Fazer com que o entrevistador mostre suas qualidades intelectuais através do entrevistado. Já que a maior parte das vêzes o entrevistador é o solicitante, a entrevista quase que só existe apoiada em sua vontade de aparecer, brilhar, ou ganhar a vida. Sempre às custas do entrevistado que, por sua vez, terá também começado assim sua vida pública.
P - Há necessidade de escolher um assunto interessante para a entrevista?
R - Nenhuma. Pode-se ir desprevenido, pegar um entrevistado desprevenido. O importante é que êste seja um nome muito conhecido.
P - É necessário falar sôbre os antecedentes do entrevistado?
R - Não, já que o entrevistado deve ser conhecido do público. As notas biográficas devem ser usadas apenas para encher espaço quando o entrevistado é lacônico.
P - Mas não foram êsses antecedentes que tornaram o entrevistado um assunto a entrevistar?
R - Sim, e portanto caíram em domínio público, viraram material morto. É preferível dizer qual o sabonete que o entrevistado usa, quântas vezes por dia escova os dentes e que espécie de estréia de cinema prefere.
P - Portanto, entre uma descoberta científica do entrevistado e a descrição do seu guarda-roupa, deve-se preferir a última?
R - Exato. O papel em que o poeta escreve é mais importante do que sua poesia, o cromador das espadas do general é mais importante que suas batalhas, e claro, um filho natural é sempre muito mais interessante do que um filho legítimo.
P - Cães e gatos, se os entrevistados os têm, são interessantes de serem descritos em entrevistas?
R - Perfeito: O grande público tem uma extraordinária tendência a emocionar-se com animais, crianças e outros fatôres de ordem romântico-biológica. Lembre-se sempre do "Cachorro da Mulher de Lincoln".
P - Dado o caráter apalpante de tôda entrevista, isto é, sabendo-se que o entrevistador nunca conhece bem o entrevistado e vice-versa, não é anti-ético fazer com que o entrevistado perca um tempo precioso com a entrevista?
R - Em absoluto, já que o entrevistador por sua vez também perde um tempo enorme com o entrevistado. Além do que, foi possivelmente à custa de outros passados entrevistados que o entrevistado atual conseguiu chegar à posição de ser solicitado por um entrevistador.
P - Mas isso, óbvio está, seria um sofisma no tempo-espaço. O fato presente é que só o entrevistador lucra com a entrevista, recebe um pagamento, não?
R - O entrevistado recebe o pagamento em publicidade.
P - Mas, e quando êle não se interessa a mínima por publicidade? Há casos dêsses, não há?
R - Há. Raros, mas há. Nesse caso, azar o dêle.
P - A entrevista não tem, além dêsses, outros interesses para o entrevistado?
R - Nenhum. Pode ficar um pouco mais à atenção dos elementos sociais ativos e ser mais convidado para bailes, formaturas, coquetéis, festas, casamentos, etc. Mas serão sempre convites partidos de grupos que se lembraram dêle através da entrevista, não íntimos, portanto, e que êle não aceitará por constrangimento.
P - Então as vantagens são tôdas e só do entrevistador?
R - Só.
P - Então por que o entrevistado, naturalmente mais seguro de si, mais velho, econômicamente mais bem situado do que o entrevistador, com maiores recursos intelectuais, não provoca uma reviravolta nos acontecimentos e transforma o entrevistador em entrevistado e vice-versa?
R - Exatamente porque sendo o entrevistador o entrevistador, e não o entrevistado, êle raramente tem qualquer interêsse para o leitor a não ser a de ser um excelente entrevisador. E nesse caso a entrevista perderia seu sentido e nenhuma publicação a pagaria.
P - Muito bem, muito certo, muito sensato; muito obrigado pela entrevista.
(Millôr Fernandes - Lições de um ignorante)
