quarta-feira, 16 de abril de 2008

Fomes

"Diz-se de quem come de tudo que 'come como um animal', o que é uma injustiça. Nenhum outro animal é omnívoro como o homem. Estamos no topo da cadeia alimentar entre os bichos de sangue quente e somos da categoria dos predadores, definida pela posição e a função dos olhos. Somos caçadores, e bons caçadores, e comemos de tudo, da baleia ao escargot.
Já éramos bons caçadores mesmo antes de inventar o arco e a flecha e a mira telescópica com sensor infravermelho. Mas nossa vocação predatória nos deixou mal-equipados como presas. Nascemos com binóculos estereoscópicos na cabeça mas não temos a visão periférica que ajuda outras espécies a sobreviverem à sua condição de presas. A ausência de olhos nas têmporas, por exemplo, está na origem de toda a nossa literatura de terror. Se o homem tivesse olho na nuca, 50% da sua angústia existencial desapareceria e Stephen King hoje seria um homem pobre. Mas nunca sabemos que outro predador se aproxima pelas nossas costas.
Temos o sentimento de presas sem seu instrumental de defesa. Somos reféns da nossa visão especializada, teremos tudo que nossos olhos de caçador não podem captar com nitidez na sua mira: vultos, sombras, fantasmas, premonições, ruídos no escuro, sensações de culpa. Ao contrário de outros animais predatórios, sentimos culpa. Temos remorso. A palavra 'remorso' quer dizer, mais ou menos, comer de volta. Outras espécies são autofágicas, mas só o homem desconfia que seu semelhante engolido pode começar a mordê-lo por dentro, por vingança.
Tememos a retribuição pela nossa omnivoracidade. Os mortos que voltam do túmulo para nos aterrorizar são nossos restos de comida - ossos à mostra, carne putrefatas. Só um inato senso do ridículo impediu até agora que alguém inventasse a suprema história de terror, a de um homem perseguido pelos espíritos de tudo que já comeu na vida, desde a primeira galinha. Inclusive os vegetais.
Nosso passado de canibais nos persegue. Aquela senhora que reage à rechonchudez de um bebê dizendo que ele é tão lindo que 'dá vontade de comer' só está expressando esta verdade atávica, que tudo o que nos agrada é apetitoso, que no fim todo desejo é uma vontade de comer. Comida e sexo se confundem na nossa linguagem desde que ela existe, e não apenas porque a ingestão e a eliminação de comida e a atividade erótica usam as mesmas vias, ou pelo menos vias paralelas.
E nem apenas pela analogia de formas: 'vagem' vem do latim 'vagina'; baunilha se chama assim porque os espanhóis acharam que aquela vagem consumida pelo asteca se parecia com uma 'vainilla', diminutivo de 'vaina', ou bainha, que também vem de 'vagina'; 'fica', ou figo, em italiano é o apelido da vulva; 'penne', aquele espaguete curto e grosso, vem do pênis mesmo. Etc..., etc. Mas não é só isto. Comer é uma forma extrema de possuir o que queremos, seja o fígado ou a coragem do inimigo, o sangue redentor do deus ou a carne da pessoa amada. Fazemos isso no sentido figurado porque, afinal, civilização é isso, é a domesticaçao dos nossos apetites, mas na nossa linguagem ainda somos predadores e comemos todas as nossas presas. Pezinhos de bebê incluídos.
Ou isto, ou a dieta está me fazendo delirar.

(Luiz Fernando Veríssimo - A Mesa Voadora)

segunda-feira, 14 de abril de 2008

História itinerante

"Descobri que nas sucessivas casas que habitamos fica smepre um fantasma nosso, de diferentes idades e cada qual mais relutante em dissolver-se no tempo. De vez em quando um deles volta. E este fantasma que agora habita o meu corpo acolhe-o com um ar superior de dono da casa, decerto para disfarçar a emoção. Pois sei que eu próprio um dia virei visitar-me onde estiver. E se não estiver? Bem: esse deve ser joão-sem-casa. O que sobrou de todas as andanças deve ser o meu verdadeiro eu. O qual, dai por diante, irá passar por novas, misteriosas aventuras...

(Mário Quintana - Da preguiça como método de trabalho)

domingo, 6 de abril de 2008

Virgínia Artigas, homenagem do Laerte




"Virgínia Artigas era uma amiga de muito tempo.
Fiquei triste sabendo que ela morreu.

No início dos anos 70, a gente costumava se reunir na casa dela - era a casa dos Artigas, o arquiteto, mas a gente dizia "Vamos na Virgínia" - pra trocar idéias, contar casos, ver livros de arte, ver o que a Virgínia andava desenhando, pintando ou gravando (gravando gravura, não fita).

E pra tentar mudar o mundo.

Essa gravura acima ela fez motivada pela luta dos vietcongs.

Ficou pra mim como um símbolo dessa época, dessa gente, dessa forma de lutar contra as avalanches que parecem invencíveis, como os Marines e os Malufes.

Mas que podem ser derrotadas com alguma coragem, sabedoria e paciência.



Como os vietcongs fizeram."

fonte: http://www2.uol.com.br/laerte/misc/artigas.html