(...)
Minhas qualidades, ah, são menos qualidades do que uma presunção. Minha educação, meu processo de luta, meu ato de viver - tudo uma comédia de erros, embora uma felicidade: é preferível pois uma comédia de erros a uma tragédia de acertos.
quarta-feira, 12 de março de 2008
Última Mensagem em Garrafa se Alguém Sobreviver
A situação, no moment em que escrevo, é grave. Vim cá fora, ver o que havia e, de repente, a paisagem tinha desaparecido. Procurei em torno, tentei respirar um pouco de ar fresco e engoli centenas de escorpiões que voejavam, espantados das tocas.
Quando entrevi e vi já não entendi nada. O que havia, senti que era passado. O que está para acontecer, ou estou muito enganado, ou será o futuro. Entre um e outro, a fina parede cristalina da presente indecência. Minha mãe, dizia então o cirurgião plástico, também foi velha um dia. Que sei eu, porém, do que ignoro? E que ignoras tu do que aprendeste? É só retificar um pouco a linha curva, eis uma reta. Que a ambição deste dia é ter duas auroras. Quem mente, porém, e diz que mente, mente? Mente no próprio ato de mentir ou mente mais quando diz que não mente? E de repente, sente? E costumeiramente? E rotineiramente? Venha de lá um abraço que vai daqui um soco. Meu pai jamais viu minha mãe, sou filhe e fruto dos trustes internacionais. Pablo Duarte de Teixeira Leite, um nome probo entre assassinos limpos. Em Portugal só nascem luzitanos. Já não digo o mesmo porém, de Sezinando, que ao expirar, morreu, e sucumbiu também, pobre cadáver! Em pé, como os que sentam. Sentado, mas deitado. Deitado, a toda pressa. O vento que passava carregando o fresquinho. Moleque de outros tempos, acorrentado e livre. Um vendia cocadas, o outro, cocos, um subia as palmerias e outro, no teatro, enriquecia de dizer besteiras. Só aplaudo a mim mesmo, pois sei que sou sincero. Durmo sempre enre feras, acrodo entre os escolhos, como pontas de pregas, visto trajos de andrajos, e vou me acostumando. Que nem por ser cristão eu sou tarado. Que nem por ser medroso me apavoro. Que a covardia em mim já é muita coragem. Sou tão manco da lanterna esquerda que a luz que dou não ilumina nada. Se balançar a cabeça os guizos soam. Atendem logo serviçais de prata. Eu lhes digo o que quero: opa de opa, centenas de macacos, uma visão total da Enciclopédia, mulher é mato, e, com um pouco do molho da perfídia, a sensação do fato. Recuem todos agora para a frente e logo avancem um passo para trás, ue é assim o chá-chá-chá dos pobres. Conto o que conto e se me contar reconto falha é a memória, vivo é só o conto. Há milhões de agulhas pelo espaço. O sexo é finito, arte finita, finito é tuto il tempo. Mandei limpar a areia desta praia - não foi muito trabalho, quatrocentos trilhões de quatrilhoes de bisbilhões e vintilhões de gráso e grões. Limpei folha por folha, dedo a dedo, nuvem a nuvem e foi das plantações a mais bonita. Nasceu primeiro a copa, em seguida as raízes e seis meses depois, um belo tronco. Agora eu calo. Agora eu falo. Agora, novamente, calo. Agora eu falo novamente. E quem puder, desdiga. Um homem é um homem ou o resto de uma intriga? Voz embargada. Passo, tardo. Coração, partido. Há borbulhas venenosas que penetram no abrigo. Ela respira o mesmo ar que eu respiro, a desgraçada! Ah, meu pai do céu, deixa eu viver, mesmo radioativo! Mesmo radiopassivo! Mesmo televisivo. Prometo contaminar um milhão de pessoas!
Quando entrevi e vi já não entendi nada. O que havia, senti que era passado. O que está para acontecer, ou estou muito enganado, ou será o futuro. Entre um e outro, a fina parede cristalina da presente indecência. Minha mãe, dizia então o cirurgião plástico, também foi velha um dia. Que sei eu, porém, do que ignoro? E que ignoras tu do que aprendeste? É só retificar um pouco a linha curva, eis uma reta. Que a ambição deste dia é ter duas auroras. Quem mente, porém, e diz que mente, mente? Mente no próprio ato de mentir ou mente mais quando diz que não mente? E de repente, sente? E costumeiramente? E rotineiramente? Venha de lá um abraço que vai daqui um soco. Meu pai jamais viu minha mãe, sou filhe e fruto dos trustes internacionais. Pablo Duarte de Teixeira Leite, um nome probo entre assassinos limpos. Em Portugal só nascem luzitanos. Já não digo o mesmo porém, de Sezinando, que ao expirar, morreu, e sucumbiu também, pobre cadáver! Em pé, como os que sentam. Sentado, mas deitado. Deitado, a toda pressa. O vento que passava carregando o fresquinho. Moleque de outros tempos, acorrentado e livre. Um vendia cocadas, o outro, cocos, um subia as palmerias e outro, no teatro, enriquecia de dizer besteiras. Só aplaudo a mim mesmo, pois sei que sou sincero. Durmo sempre enre feras, acrodo entre os escolhos, como pontas de pregas, visto trajos de andrajos, e vou me acostumando. Que nem por ser cristão eu sou tarado. Que nem por ser medroso me apavoro. Que a covardia em mim já é muita coragem. Sou tão manco da lanterna esquerda que a luz que dou não ilumina nada. Se balançar a cabeça os guizos soam. Atendem logo serviçais de prata. Eu lhes digo o que quero: opa de opa, centenas de macacos, uma visão total da Enciclopédia, mulher é mato, e, com um pouco do molho da perfídia, a sensação do fato. Recuem todos agora para a frente e logo avancem um passo para trás, ue é assim o chá-chá-chá dos pobres. Conto o que conto e se me contar reconto falha é a memória, vivo é só o conto. Há milhões de agulhas pelo espaço. O sexo é finito, arte finita, finito é tuto il tempo. Mandei limpar a areia desta praia - não foi muito trabalho, quatrocentos trilhões de quatrilhoes de bisbilhões e vintilhões de gráso e grões. Limpei folha por folha, dedo a dedo, nuvem a nuvem e foi das plantações a mais bonita. Nasceu primeiro a copa, em seguida as raízes e seis meses depois, um belo tronco. Agora eu calo. Agora eu falo. Agora, novamente, calo. Agora eu falo novamente. E quem puder, desdiga. Um homem é um homem ou o resto de uma intriga? Voz embargada. Passo, tardo. Coração, partido. Há borbulhas venenosas que penetram no abrigo. Ela respira o mesmo ar que eu respiro, a desgraçada! Ah, meu pai do céu, deixa eu viver, mesmo radioativo! Mesmo radiopassivo! Mesmo televisivo. Prometo contaminar um milhão de pessoas!
O Brasil
(Descrição Física e política)
(Uma sugestão de J. Brito Camargo)
O Brasil é um país maior do que os menores e menor do que os maiores. É um país grade, porque, medida sua extensão, verifica-se que não é pequeno. Divide-se em três zonas climatéricas absolutamente distintas: a primeira, a segunda e a terceira. Sendo que a segunda fica entre a primeira e a terceira. As montanhas são considerávelmente mais altas que as planícies, estando sempre acima do nível do mar. Há muitas diferenças entre as várias regiões geográficas do país mais a mais importante é a principal. Na agricultura faz-se exclusivamente o cultivo de produtos vegetais enquanto a pecuária especializa-se na criação do gado. A população é toda baseada no elemento humano sendo que as pessoas não nascidas no país, são, sem exceção, estrangeiras. Na indústria fabricam-se produtos industriais, sobretudo iguais e semelhantes, sem diexar-se de lado os diferentes. No campo da exploração dos minérios o país tem uma posição só inferior aos que lhe estão acima, sendo, porém, muito maior produtor do que todos todos os países que não atingiram o seu nível. Pode-se mesmo dizr que, excetuando-se seus concorrentes, é o único produtor de minérios no mundo inteiro. Tão privilegiada é hoje, enfim, a situação do país, que os cientistas procuram apenas descobrir o que não está descoberto, deixando para a indústria tudo que já foi aprovado como industrializável e para o comércio tudo que é vendável. Na arte também não há ciência, reservando-se essa atividade exclusivamente para os artistas. Quanto aos escritores são recrutados geralmente, entre os intelectuais. É enfim, o País do Futuro, sendo que este se aproxima a cada dia que passa.
(Uma sugestão de J. Brito Camargo)
O Brasil é um país maior do que os menores e menor do que os maiores. É um país grade, porque, medida sua extensão, verifica-se que não é pequeno. Divide-se em três zonas climatéricas absolutamente distintas: a primeira, a segunda e a terceira. Sendo que a segunda fica entre a primeira e a terceira. As montanhas são considerávelmente mais altas que as planícies, estando sempre acima do nível do mar. Há muitas diferenças entre as várias regiões geográficas do país mais a mais importante é a principal. Na agricultura faz-se exclusivamente o cultivo de produtos vegetais enquanto a pecuária especializa-se na criação do gado. A população é toda baseada no elemento humano sendo que as pessoas não nascidas no país, são, sem exceção, estrangeiras. Na indústria fabricam-se produtos industriais, sobretudo iguais e semelhantes, sem diexar-se de lado os diferentes. No campo da exploração dos minérios o país tem uma posição só inferior aos que lhe estão acima, sendo, porém, muito maior produtor do que todos todos os países que não atingiram o seu nível. Pode-se mesmo dizr que, excetuando-se seus concorrentes, é o único produtor de minérios no mundo inteiro. Tão privilegiada é hoje, enfim, a situação do país, que os cientistas procuram apenas descobrir o que não está descoberto, deixando para a indústria tudo que já foi aprovado como industrializável e para o comércio tudo que é vendável. Na arte também não há ciência, reservando-se essa atividade exclusivamente para os artistas. Quanto aos escritores são recrutados geralmente, entre os intelectuais. É enfim, o País do Futuro, sendo que este se aproxima a cada dia que passa.
segunda-feira, 10 de março de 2008
domingo, 9 de março de 2008
Regras Fundamentais para o Jôgo-da-Existência
A) O Jôgo da Existência se joga em dois grupos. De um lado, você, do outro, tôdas as outras pessoas. Seu objetivo principal no jôgo é continuar respirando. Se você deixar de respirar é pôsto para fora do jôgo. Os jogadores contrários procurarão por todos os modos e maneiras impedir que você respire. O jôgo consiste principalmente em evitar isso o tempo todo.
B) Cada jogador fica dentro de um pequeno círculo. Cada jogador joga sozinho contra todos. Grandes Circulos encerram vários Pequenos Círculos. O jogador pode sair de seu Pequeno Círculo para tentar eliminar do jôgo outro jogador de outro Pequeno Círculo, apertando-lhe a garganta ou de qualquer outra maneira cortando-lhe o ar. Mas para passar do seu Círculo a outro Círculo igualmente grande, ou maior, precisa eliminar todos os jogadores do seu Círculo.
C) O jogador pode evitar o risco de ser pôsto para fora do jôgo emprestando suas poucas fôrças a outro jogador mais forte. Êste correrá o risco de sair do jôgo em seu lugar. Mas com isso o jogador desistente será obrigado a premanecer no seu próprio Pequeno Círculo individual até o fim do jôgo.
D) Embora quase todos os tentem, nenhum jogador tem direito de pôr outro par fora do jôgo. Éticamente deve apenas fazer pressão para deslocá-lo do seu Círculo.
E) O único com autoridade de pôr jogadores para fora é o Grande Árbitro.
F) Chama-se de Vencedor o jogador que consegue colocar muitos outros sob seu comando. Tem então autoridade para impedir que cada um dêles individualmente saia de seu Pequeno Círculo. Com isso criou-se um Grande Círculo. E seu objetivo fica sendo então a anexação de outros Grandes Círculos.
G) Há muitos jogadores que acreditam poder voltar a jogar mesmo depois de serem postos fora de campo. Não é possível.
H) Se, em qualquer momento, um dos jogadores sair do seu Pequeno Círculo sem poder, o Grande Árbitro apitará não "foul", como em outros jogos, mas crime.
I) Os jogadores não são postos para fora do jôgo pelos lados do campo. Enterra-se-os em seu próprio Pequeno Círculo.
J) A nenhum jogador é permitido retirar-se do jôgo por sua própria vontade. Deve esperar a hora em que, por um ataque do adversário, sua respiração cesse e então o Grande Árbitro mande retirá-lo do Jôgo.
K) Um jôgo dura em média cinqüenta ou sessenta anos para cada jogador. Mas o Campeonato é ininterrupto, não pára nunca.
L) O objetivo do jôgo é um mistério absoluto. Na verdade a única coisa que mantém o ardor do esporte e conserva os jogadores renhidos dentro da partida é o terror de ser pôsto fora de jôgo. Fora do jôgo não há salvação.
(Millôr Fernandes - Lições de um ignorante)
B) Cada jogador fica dentro de um pequeno círculo. Cada jogador joga sozinho contra todos. Grandes Circulos encerram vários Pequenos Círculos. O jogador pode sair de seu Pequeno Círculo para tentar eliminar do jôgo outro jogador de outro Pequeno Círculo, apertando-lhe a garganta ou de qualquer outra maneira cortando-lhe o ar. Mas para passar do seu Círculo a outro Círculo igualmente grande, ou maior, precisa eliminar todos os jogadores do seu Círculo.
C) O jogador pode evitar o risco de ser pôsto para fora do jôgo emprestando suas poucas fôrças a outro jogador mais forte. Êste correrá o risco de sair do jôgo em seu lugar. Mas com isso o jogador desistente será obrigado a premanecer no seu próprio Pequeno Círculo individual até o fim do jôgo.
D) Embora quase todos os tentem, nenhum jogador tem direito de pôr outro par fora do jôgo. Éticamente deve apenas fazer pressão para deslocá-lo do seu Círculo.
E) O único com autoridade de pôr jogadores para fora é o Grande Árbitro.
F) Chama-se de Vencedor o jogador que consegue colocar muitos outros sob seu comando. Tem então autoridade para impedir que cada um dêles individualmente saia de seu Pequeno Círculo. Com isso criou-se um Grande Círculo. E seu objetivo fica sendo então a anexação de outros Grandes Círculos.
G) Há muitos jogadores que acreditam poder voltar a jogar mesmo depois de serem postos fora de campo. Não é possível.
H) Se, em qualquer momento, um dos jogadores sair do seu Pequeno Círculo sem poder, o Grande Árbitro apitará não "foul", como em outros jogos, mas crime.
I) Os jogadores não são postos para fora do jôgo pelos lados do campo. Enterra-se-os em seu próprio Pequeno Círculo.
J) A nenhum jogador é permitido retirar-se do jôgo por sua própria vontade. Deve esperar a hora em que, por um ataque do adversário, sua respiração cesse e então o Grande Árbitro mande retirá-lo do Jôgo.
K) Um jôgo dura em média cinqüenta ou sessenta anos para cada jogador. Mas o Campeonato é ininterrupto, não pára nunca.
L) O objetivo do jôgo é um mistério absoluto. Na verdade a única coisa que mantém o ardor do esporte e conserva os jogadores renhidos dentro da partida é o terror de ser pôsto fora de jôgo. Fora do jôgo não há salvação.
(Millôr Fernandes - Lições de um ignorante)
Do Dinheiro
(...)
Dinheiro é o que as mulheres não sabem nem querem saber de onde vem, os maridos não sabem onde buscar, o rico não sabe quanto tem, o pobre jamais tem o suficiente e o comunista não tem o mínimo necessário. Dinheiro é o talento dos poderosos, o legado dos que partem para sempre, o prêmio da economia, o objetivo dos ladrões, o poder do capitalismo. Para os racionalistas é um conceito como outro qualquer, para os inconformistas é um mal que deve ser estirpado da sociedade. É a dor do mendigo verdadeiro e o desespêro falso do mendigo falso que quer tomar uma sopa falsa, que sabemos vendida em garrafa. O dinheiro é um mito de tal forma acreditado que se transformou nuam super-realidade, uma senha para o respeito alheio, e se já foi boi na antiguidade hoje é tão limpo quanto fôr o cheque que você tem no bôlso. É viagem e tranqülidade e se não traz felicidade pelo menos paga tudo que ela gasta.
(Millôr Fernandes - Lições de um ignorante)
Dinheiro é o que as mulheres não sabem nem querem saber de onde vem, os maridos não sabem onde buscar, o rico não sabe quanto tem, o pobre jamais tem o suficiente e o comunista não tem o mínimo necessário. Dinheiro é o talento dos poderosos, o legado dos que partem para sempre, o prêmio da economia, o objetivo dos ladrões, o poder do capitalismo. Para os racionalistas é um conceito como outro qualquer, para os inconformistas é um mal que deve ser estirpado da sociedade. É a dor do mendigo verdadeiro e o desespêro falso do mendigo falso que quer tomar uma sopa falsa, que sabemos vendida em garrafa. O dinheiro é um mito de tal forma acreditado que se transformou nuam super-realidade, uma senha para o respeito alheio, e se já foi boi na antiguidade hoje é tão limpo quanto fôr o cheque que você tem no bôlso. É viagem e tranqülidade e se não traz felicidade pelo menos paga tudo que ela gasta.
(Millôr Fernandes - Lições de um ignorante)
Notas Sôbre a Arte de Entrevistar
(Lição sôbre a dita arte, feita com perguntas e respostas. Especialmente para ser usada no curso de Cinismo Jornalístico da Faculdade de Filosofia).
P - Qual é o objetio fundamental de uma entrevista?
R - Fazer com que o entrevistador mostre suas qualidades intelectuais através do entrevistado. Já que a maior parte das vêzes o entrevistador é o solicitante, a entrevista quase que só existe apoiada em sua vontade de aparecer, brilhar, ou ganhar a vida. Sempre às custas do entrevistado que, por sua vez, terá também começado assim sua vida pública.
P - Há necessidade de escolher um assunto interessante para a entrevista?
R - Nenhuma. Pode-se ir desprevenido, pegar um entrevistado desprevenido. O importante é que êste seja um nome muito conhecido.
P - É necessário falar sôbre os antecedentes do entrevistado?
R - Não, já que o entrevistado deve ser conhecido do público. As notas biográficas devem ser usadas apenas para encher espaço quando o entrevistado é lacônico.
P - Mas não foram êsses antecedentes que tornaram o entrevistado um assunto a entrevistar?
R - Sim, e portanto caíram em domínio público, viraram material morto. É preferível dizer qual o sabonete que o entrevistado usa, quântas vezes por dia escova os dentes e que espécie de estréia de cinema prefere.
P - Portanto, entre uma descoberta científica do entrevistado e a descrição do seu guarda-roupa, deve-se preferir a última?
R - Exato. O papel em que o poeta escreve é mais importante do que sua poesia, o cromador das espadas do general é mais importante que suas batalhas, e claro, um filho natural é sempre muito mais interessante do que um filho legítimo.
P - Cães e gatos, se os entrevistados os têm, são interessantes de serem descritos em entrevistas?
R - Perfeito: O grande público tem uma extraordinária tendência a emocionar-se com animais, crianças e outros fatôres de ordem romântico-biológica. Lembre-se sempre do "Cachorro da Mulher de Lincoln".
P - Dado o caráter apalpante de tôda entrevista, isto é, sabendo-se que o entrevistador nunca conhece bem o entrevistado e vice-versa, não é anti-ético fazer com que o entrevistado perca um tempo precioso com a entrevista?
R - Em absoluto, já que o entrevistador por sua vez também perde um tempo enorme com o entrevistado. Além do que, foi possivelmente à custa de outros passados entrevistados que o entrevistado atual conseguiu chegar à posição de ser solicitado por um entrevistador.
P - Mas isso, óbvio está, seria um sofisma no tempo-espaço. O fato presente é que só o entrevistador lucra com a entrevista, recebe um pagamento, não?
R - O entrevistado recebe o pagamento em publicidade.
P - Mas, e quando êle não se interessa a mínima por publicidade? Há casos dêsses, não há?
R - Há. Raros, mas há. Nesse caso, azar o dêle.
P - A entrevista não tem, além dêsses, outros interesses para o entrevistado?
R - Nenhum. Pode ficar um pouco mais à atenção dos elementos sociais ativos e ser mais convidado para bailes, formaturas, coquetéis, festas, casamentos, etc. Mas serão sempre convites partidos de grupos que se lembraram dêle através da entrevista, não íntimos, portanto, e que êle não aceitará por constrangimento.
P - Então as vantagens são tôdas e só do entrevistador?
R - Só.
P - Então por que o entrevistado, naturalmente mais seguro de si, mais velho, econômicamente mais bem situado do que o entrevistador, com maiores recursos intelectuais, não provoca uma reviravolta nos acontecimentos e transforma o entrevistador em entrevistado e vice-versa?
R - Exatamente porque sendo o entrevistador o entrevistador, e não o entrevistado, êle raramente tem qualquer interêsse para o leitor a não ser a de ser um excelente entrevisador. E nesse caso a entrevista perderia seu sentido e nenhuma publicação a pagaria.
P - Muito bem, muito certo, muito sensato; muito obrigado pela entrevista.
(Millôr Fernandes - Lições de um ignorante)
P - Qual é o objetio fundamental de uma entrevista?
R - Fazer com que o entrevistador mostre suas qualidades intelectuais através do entrevistado. Já que a maior parte das vêzes o entrevistador é o solicitante, a entrevista quase que só existe apoiada em sua vontade de aparecer, brilhar, ou ganhar a vida. Sempre às custas do entrevistado que, por sua vez, terá também começado assim sua vida pública.
P - Há necessidade de escolher um assunto interessante para a entrevista?
R - Nenhuma. Pode-se ir desprevenido, pegar um entrevistado desprevenido. O importante é que êste seja um nome muito conhecido.
P - É necessário falar sôbre os antecedentes do entrevistado?
R - Não, já que o entrevistado deve ser conhecido do público. As notas biográficas devem ser usadas apenas para encher espaço quando o entrevistado é lacônico.
P - Mas não foram êsses antecedentes que tornaram o entrevistado um assunto a entrevistar?
R - Sim, e portanto caíram em domínio público, viraram material morto. É preferível dizer qual o sabonete que o entrevistado usa, quântas vezes por dia escova os dentes e que espécie de estréia de cinema prefere.
P - Portanto, entre uma descoberta científica do entrevistado e a descrição do seu guarda-roupa, deve-se preferir a última?
R - Exato. O papel em que o poeta escreve é mais importante do que sua poesia, o cromador das espadas do general é mais importante que suas batalhas, e claro, um filho natural é sempre muito mais interessante do que um filho legítimo.
P - Cães e gatos, se os entrevistados os têm, são interessantes de serem descritos em entrevistas?
R - Perfeito: O grande público tem uma extraordinária tendência a emocionar-se com animais, crianças e outros fatôres de ordem romântico-biológica. Lembre-se sempre do "Cachorro da Mulher de Lincoln".
P - Dado o caráter apalpante de tôda entrevista, isto é, sabendo-se que o entrevistador nunca conhece bem o entrevistado e vice-versa, não é anti-ético fazer com que o entrevistado perca um tempo precioso com a entrevista?
R - Em absoluto, já que o entrevistador por sua vez também perde um tempo enorme com o entrevistado. Além do que, foi possivelmente à custa de outros passados entrevistados que o entrevistado atual conseguiu chegar à posição de ser solicitado por um entrevistador.
P - Mas isso, óbvio está, seria um sofisma no tempo-espaço. O fato presente é que só o entrevistador lucra com a entrevista, recebe um pagamento, não?
R - O entrevistado recebe o pagamento em publicidade.
P - Mas, e quando êle não se interessa a mínima por publicidade? Há casos dêsses, não há?
R - Há. Raros, mas há. Nesse caso, azar o dêle.
P - A entrevista não tem, além dêsses, outros interesses para o entrevistado?
R - Nenhum. Pode ficar um pouco mais à atenção dos elementos sociais ativos e ser mais convidado para bailes, formaturas, coquetéis, festas, casamentos, etc. Mas serão sempre convites partidos de grupos que se lembraram dêle através da entrevista, não íntimos, portanto, e que êle não aceitará por constrangimento.
P - Então as vantagens são tôdas e só do entrevistador?
R - Só.
P - Então por que o entrevistado, naturalmente mais seguro de si, mais velho, econômicamente mais bem situado do que o entrevistador, com maiores recursos intelectuais, não provoca uma reviravolta nos acontecimentos e transforma o entrevistador em entrevistado e vice-versa?
R - Exatamente porque sendo o entrevistador o entrevistador, e não o entrevistado, êle raramente tem qualquer interêsse para o leitor a não ser a de ser um excelente entrevisador. E nesse caso a entrevista perderia seu sentido e nenhuma publicação a pagaria.
P - Muito bem, muito certo, muito sensato; muito obrigado pela entrevista.
(Millôr Fernandes - Lições de um ignorante)
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