terça-feira, 30 de janeiro de 2007

"Será que a ostra quando arrancada de sua raiz sente ansiedade? Fica inquieta na sua vida sem olhos. Eu costumava pingar limão em cima da ostra viva e via com horror e fascínio ela contorser-se toda.
(...)
Não gosto é quando pingam limão nas minhas profundezas e fazem com que eu me contorsa toda. Os fatos da vida são o limão na ostra? Será que a ostra dorme? (...)
Estou respirando. Para cima e para baixo. Para cima e para baixo. Como é que a ostra nua respira? Se respira não vejo? O que não vejo não existe? (...) o que não vejo contudo existe. (...) A verdade está em alguma parte: mas inútil pensar. Não a descobrirei e no entanto vivo dela."

Clarice Lispector - Água Viva, p. 28-29.