quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Impressões da morte - 1ª tentativa

Me aproximei caminhando devagar.
No chão, ela se debatia já sem controle sobre o corpo.
Ajoelhei-me ao seu lado.
Toquei nela.
- shhhhhhh. Sou eu. Já vai passar... Olha pra mim. Isso. Já vai passar. Calma.
Embalei ela em meu colo sempre olhando fixo em seus olhos.
Pude vê-la e compreender o que me dizia. Ela estava tão confusa e assutada.
- Fique olhando pra mim. Eu estou aqui com você. Já vai passar.
Tudo isso eu fazia com ela em meus braços e olhando em seus olhos e caminhando instintivamente pelo caminho que deveria seguir. Então ela foi ficando calma, relaxando. Me olhando com uma pergunta. Nos compreendemos. Foi o mais fundo que eu olhei nos olhos de um vivente.
Foi então que de dentro de seus olhos, no líquido negro e reluzente da íris que estava bem dilatada, começou a surgir um outro líquido, Branco. E ele foi como que vazando do fundo, do infinito, e junto com ele veio trazendo tudo o que fazia dela ser. O negrume foi levado para a luz, deixando nada. Ganhou os ares, se foi, me passando através.
Olhei praqueles... não eram mais olhos. Tinha em meus braços um monte de carne, de víceras, de língua escorrendo sangue, de pêlo dourado sujo de poeira e o cheiro da morte.