quinta-feira, 5 de outubro de 2006

Tanquinho, noite sem lua.

A ligação caiu. Por isso eu flagrei a velinha que ouvia nossa conversa se recolher da janela para a penumbra do seu quarto. Nenhuma casa tem muro. Só os ricos tem muros. Fora essas, são casinhas de meia água coloridas, portas e janelas dão direto na rua. Uma casa começa quando a outra termina e só dá pra saber disso porque muda de cor. Azul, amarela, vermelha, verde, por aí vai... São caiadas e o quintalzinho fica nos fundos.
Aqui as calçadas são altas, tipo um metro acima do nível da rua de um lado, do outro é mais baixo. A cidade fica numa região de morros suaves. Nada muito alto. Só o suficiente pra ter vielinhas sinuosas, sobes e desces. Algumas ruas são calçadas, com paralelepípedos ou com umas pedras da região que parecem aquelas usadas em piscinas.
Do outro lado da rua tem uma portinha iluminada. É uma casinha cor de rosa. A padaria. A rua é bem iluminada ladeada por pés de Oiti entre os postes. À noite, as pessoas ficam sentadas nas calçadas. Tem vários bolinhos de pessoas ao longo da rua. Um bando de meninos de um lado, um bando de meninas do outro. Os homens se reunem no final da rua, num banco. Lá ouvem-se as melhores mentiras do dia. A noite é fria e os velhos se agasalham mais que os jovens.
Passeando pela rua e olhando pra dentro das casas, vejo que todo mundo acompanha a novela. A casa que mais me chamou a atenção foi o interior de uma barbearia. Com uma daquelas cadeiras de barbeiro antigas, de couro, de costas para a rua. O espelho quadrado, as paredes verdes, me chamaram a atenção nessa noite.
Essa rua específicamente, começa e termina em praça. De um lado a praça da feira, onde se concentram as casas comerciais. São poucas lojas. Mas tem a casa do Jorge que faz queijo. Tem a casa do Nau, dono da venda que tem tudo. Por aí vai... A outra praça na verdade é uma área descampada com casas em volta. Um quadrado. Nas noites muito frias as pessoas fazem pequenas fogueiras em frente às casas e ficam batendo papo.
Saindo dessa rua, já pega o caminho da roça. São três quilômetros até a Minação, onde fica a nossa casa. No caminho, muitos sapos olham assustados o carro. Não sei porque, eles são enormes. Imagine um homem bem gordo levantando de uma cadeira de balanço. Os sapos cururus fazem o mesmo ruido pra pular. Tem muitas corujinhas também.
Hoje não tem lua, tem muitas estrelas. Olhar para elas é como olhar para o mar.